O Chefe da Igreja. Parte II

Fonte: Dogma Católico, volume 5.

Autor: Padre Monsabré.

Transcrição: Jonadabe Rios

II

            O poder do chefe da Igreja vem certamente de Deus, e, como tal, está acima de toda discussão.

            Mas, para bem conhecer a medida das nossas relações e da nossa submissão em face daquele poder, convém saber qual seja a sua extensão. Vou dizê-lo, senhores, porque tenho a peito justificar a própria introdução pela qual abri esta conferência.

            O espírito moderno, em suas horas de sabedoria, mercê de Deus! Admite a ideia de soberania; mas exige meios que protejam a liberdade contra os caprichos do absolutismo. A lei de Deus e a consciência dos que governam, as tradições de um poder há muito tempo em exercício e os costumes públicos, não lhe parecem garantias suficientes. Só fica completamente seguro quando o povo, representado pelos seus eleitos, toma conta do seu governo, propõe, discute, vota as leis, deixando ao chefe do Estado apenas o cuidado de promulgar e garantir a sua execução. Reinar e não governar, eis o ideal da soberania.

            Limite o espírito moderno esta teoria ao governo das coisas temporais, e nada tenho que estranhar; mas, se aplica ao governo da Igreja o seu axioma favorito, dir-lhe-ei: Alto! Jesus Cristo, estabelecendo a santa monarquia, não nos consultou sobre a natureza do poder que a investiu. Ele mesmo determinou a natureza e economia deste poder. Já a indiquei, senhores; e nesse poder nada vedes que se pareça com as restrições que temos o direito de impor à soberania na ordem puramente humana. Dependendo só de Deus, o chefe da Igreja recebeu dele um poder pleno que não tem igual, pois que os mais absolutos poderes que podemos conceber não podem, apesar da pressão exterior que exercem, penetrar até ao santuário da consciência e submetê-la a todas as suas decisões.

            Escutai a definição da Igreja; o que vos tenho a dizer será apenas um comentário desta definição: “Seja anátema todo aquele que disser que o Pontífice romano tem o ofício de inspeção ou direção, e não o pleno e supremo poder de jurisdição sobre toda a Igreja, não só naquelas coisas que pertencem à fé e aos costumes, mas também naquelas que pertencem à disciplina e regime da Igreja espalhada por todo o orbe; ou afirmar que o Pontífice romano tem apenas a principal parte, mas não a plenitude daquele supremo poder; ou que este poder não é ordinário e imediato quer sobre todas e cada uma das Igrejas, que sobre todos e cada um dos pastores e fiéis[1]”.

            Estas palavras são claras. Elas nos mostram, na eminência da hierarquia à qual Cristo confiou a sua autoridade, não um soberano encarregado de fazer conhecer a todos as decisões e os decretos desta hierarquia, mas um senhor completo, no qual se concentra a autoridade e tem todo o poder sob a sua dependência. Cristo quis esta concentração. “Era manifestante o seu desígnio, diz Bossuet, dar primeiramente a um o que na série dos séculos quis dar a muitos; mas a série não destrói o começo, o primeiro não perde o seu lugar. O poder dado a muitos tem, na mesma divisão, a restrição, ao passo que o poder dado a um só sobre muitos, sem exceção, é pleno. Os nossos antigos doutores unanimemente reconheceram, na cadeira de São Pedro, a plenitude do poder apostólico; é um ponto decidido e resolvido. Por esta constituição, tudo se faz na Igreja, porque tudo na Igreja é divino e uno; e como cada parte é divina, o laço é divino também, e o conjunto é tal que cada parte atua com a força do todo[2]. Estas belas palavras arrancadas ao grande bom senso daquele que procurava conciliar as exigências da unidade cristã com as pretensões do galicanismo, podem resumir-se assim: O poder do chefe da Igreja é tal que, pela sua penetração, realiza a força do poder de toda a Igreja, porque ele mesmo possui a força do todo.

            Apliquemos este princípio.

            A Igreja ensina, mas o seu chefe é o doutor supremo. Ou seja que ele consulte os seus irmãos dispersos, ou seja que em virtude da sua autoridade plena os convoque e reúna nessas solenes assembléias de luz, de justiça e de caridade em que a Igreja provê de remédio aos grandes males, as suas decisões, qualquer que seja a autoridade que deduzam da ciência e do numero, só têm valor quando o doutor supremo diz: Assim é: Ita est. É ele mesmo, encarregado por Cristo de distribuir aos cordeiros e às ovelhas o alimento sagrado da verdade e de os desviar dos pastos venenosos, ele mesmo tem o direito de escutar a respiração da fé na alma do povo cristão e de se certificar do estado da revelação, de proclamar a sua grande voz para exprimir o que sabe e conhece ser a tradição católica e o ensino de Deus, definir a verdade, impor todas as suas definições, condenar o erro. “Fala, diz-lhe a Igreja, fala, e que o teu sapientíssimo magistério seja escutado por todas as Igrejas, a fim de que recebam a tua palavra de verdade e o teu decreto de justiça”[3].

            A Igreja legisla, mas o seu chefe é o supremo legislador. As leis particulares têm força só porque a autoridade religiosa que as dita está unida à autoridade suprema; as leis gerais só obrigam a comunidade cristã quando o Papa as confirma com o seu placet. Ainda que as vontades de todo o episcopado se reunissem num mesmo decreto, este decreto ficava suspenso, se o chefe da Igreja não o aprovasse. Se o aprova o seu vigor está garantido: entra no corpo do direito que governa a Igreja universal. Como é que o sucessor de Pedro seria o fundamento de onde depende a eterna solidez do edifício construído pelo Salvador, se não tivesse a propriedade de tornar sólido tudo o que ele apoia com a sua autoridade? Os seus decretos penetram por toda a parte sem que haja autoridade alguma que possa suspender a sua soberana eficácia. O direito universal de apascentar que ele recebeu de Jesus Cristo, traz consigo o direito universal de reger e governar com leis. Assim o exige a unidade; se cada Igreja tem o seu pastor e se cada pastor realiza a unidade da sua Igreja, quem realizará a unidade dos pastores e de todo o povo cristão? “Não é manifesto, diz Santo Tomás, que, não obstante a divisão das dioceses, só há uma Igreja, e portanto um só povo cristão, e que é necessário a este povo uma cabeça única?[4]” Esta cabeça é o Papa, cuja jurisdição universal informa imediatamente não só cada uma das Igrejas particulares e cada um dos seus pastores, mas também cada um dos seus membros, unificando as dioceses, os bispos e os fiéis numa mesma obediência ao seu soberano poder, realizando assim a palavra de Cristo: “Não haverá mais que um redil e um só pastor: Et fiet unum ovile et unus pastor” (João X,  16).

            A Igreja julga, mas o seu chefe é o juiz supremo. Jesus Cristo deu-lhe, à parte e antes de todos os outros, o poder de ligar e desligar para que se soubesse bem que ele está na eminência da magistratura religiosa, que todo o juízo, mesmo quando emana daqueles a quem o Espírito Santo confiou diretamente a guarda das diversas porções do rebanho de Jesus Cristo, não é, na Igreja, a última palavra da justiça, e que sempre se pode apelar para o tribunal de Pedro, que é o único que tem o direito de pronunciar sentenças irrevogáveis. Estava cumprida a misericordiosa intenção do Salvador. Atendei a voz dos séculos, e vereis as Igrejas ultrajadas, os bispos e clérigos perseguidos, os povos oprimidos, os príncipes traídos, as rainhas desprezadas, exclamarem: Roma! Roma! Roma! É o grito da valente e casta heroína condenada ao fogo para a punir o ter humilhado a Inglaterra salvando a França. Que digo? Os mesmos hereges proclamaram altamente que reconhecem a suprema magistratura do chefe da Igreja. Como os inocentes, clamam: Roma! Roma! Enquanto o seu orgulho esperava uma sentença favorável à sua doutrina. Só depois das condenações pontificiais é que apelavam do Papa para um concílio. Apelação inútil e condenável; porque não há concílio algum que possa pronunciar uma sentença válida, não sendo aprovada pelo Papa; nenhum concílio, portanto, que não tenha necessidade do próprio Papa para reformar uma sentença do Papa. Logo, quando o chefe da Igreja pronuncia, tudo está definido. A ninguém é permitido julgar o seu juízo[5].

            Tudo isto vos parece estranho, senhores, e quereis explicação de um tão grande poder. Ei-la neste princípio: a unidade da Igreja, cujo exemplar vos mostrei na prodigiosa unidade da pessoa do Salvador, é tão profunda, tão intima, tão estreita, que há entre a cabeça e todo o corpo uma comunicação de propriedades e de idiomas que nos obriga a afirmar de uma o que se afirma da outra, e a dizer com Santo Tomás: “À autoridade do sumo Pontífice pertencem todas as coisas que pertencem à Igreja: Ad auctoritatem summi Pontificis pertinente omnia quae pertinente ad totam Ecclesiam[6]. Foi porque se desprezou esta união da cabeça e do corpo que nasceram os erros que diminuem a autoridade do chefe da Igreja, como, da divisão introduzida na pessoa do Cristo, nasceram as heresias que levam à negação da sua divindade. Logo, em virtude da unidade querida e estabelecida por Jesus Cristo na sociedade cristã, afirmei e afirmo ainda do chefe da Igreja os poderes de toda a Igreja: o poder doutrinal, o poder legislativo, o poder judicial em gral supremo, e remato estes poderes coroando-os com a divina prerrogativa, cuja natureza defini e cuja necessidade provei: a infalibilidade.

            A Igreja é infalível no exercício do seu poder, mas é do seu chefe que depende a infalibilidade. Ele é a fonte da infalibilidade, não porque a produza como causa primeira, pois que a infalibilidade é um efeito da assistência do Espírito Santo; não porque ele crie o seu objeto, porque este objeto existe: é a revelação divina que ninguém pode alterar; mas, pelo seu concurso indispensável e insubstituível, faz com que a Igreja possua o dom de não errar; para me servir de uma expressão da escola que todos vós compreendeis, informa a infalibilidade, como a nossa alma informa o corpo e o eleva à dignidade de ser humano. Que tal ou tal bispo recuse o seu assentimento às definições e aos decretos da Igreja, nem por isso deixam de ser divinos. Se o Pontífice supremo suspende o seu assentimento, não passam de humanos, porque lhes falta o selo da infalibilidade. Eis no que convinham os velhos adversários do privilégio pontifical, que não queriam sair dos limites da ortodoxia.

            Ora, não posso explicar, senhores, como é que o chefe da Igreja pode dar o que não tem, como pode determinar a infalibilidade se não tem o dom da inerrância. Felizmente este dom aparece-me em todas as palavras pelas quais Cristo estabeleceu o seu soberano poder. Ele disse: “Tu és Pedro, sobre ti edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus. Tudo o que ligares ou desligares sobre a terra será ligado ou desligado no céu. – Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas.” Poderiam dizer-se estas coisas a um homem, sem o prevenir contra o erro? É sobre Pedro que se apoia todo o edifício espiritual construído pelo Salvador, edifício eternamente garantido, por sua promessa que não pode mentir, contra os assaltos das forças inimigas da sua bela e gloriosa unidade, e Pedro, seduzido pelo poder das trevas e pervertido pela mentira, havia de desmoronar o edifício? Dar-lhe-ia Deus as chaves do céu, e poderia Pedro levar-nos às portas do inferno? Tem o poder de ligar e desligar, e havia de poder quebrar os laços sagrados, cingir-nos com as cadeias do erro e tudo isto havia de ser ratificado no céu? Deve apascentar os pastores e os fiéis, e poderia dar-lhes uma nutrição envenenada e conduzi-los pelos caminhos malditos? Expor estas hipóteses, o mesmo é que refutá-las.

            Há mais ainda. Jesus Cristo quis poupar-nos o trabalho de deduzir a infalibilidade do chefe da Igreja das promessas que lhe fez e da fórmula da sua instituição. Afirma a prerrogativa do seu Vigário diretamente e em termos expressos. “Simão, diz ele, eu pedi por ti, a fim de que a tua fé não desfalecesse. E tu, depois de convertido, confirma os teus irmãos[7]”. Ouvis, senhores? Jesus Cristo não diz ao seu Vigário que a sua vida será sem mácula, mas que a sua fé não desfalecerá. Pedro poderá pregar, mas tem o direito de confirmar os seus irmãos na verdade. Palavra significativa que confirma agora o que por muitas vezes vos disse: que o soberano Pontífice, o primeiro dotado do dom da infalibilidade, a comunica a toda a Igreja mediante o seu concurso indispensável e insubstituível. Jesus pediu, e da sua oração saiu a infalibilidade do chefe da Igreja. Eis o que é certo, a não querermos duvidar quer da veracidade de um Deus, quer da eficácia da sua oração, quer da transmissão da prerrogativa de Pedro aos seus sucessores.

            Estas dúvidas, senhores, poderam germinar tardiamente no espírito de alguns sectários, de alguns dignatários da Igreja muito transigentes com as ambições dos príncipes, mas nem um só instante assaltaram o espírito da Igreja. Pela boca dos seus doutores, a Igreja proclama: “É indicando aos hereges a tradição e a fé da Igreja romana que se confunde a sua vanglória, a sua cegueira, a sua perversidade[8]; que os poderes do inferno não podem prevalecer nem contra a pedra sobre a qual Cristo edificou a sua Igreja, nem contra a Igreja[9]; que, se há heresias e cismas, é porque não se obedece ao mesmo sacerdote de Deus, porque se esquece que houve sempre na Igreja um pontífice e um juiz representante de Cristo[10]; que onde está Pedro, está a Igreja com todos os seus poderes e prerrogativas[11]; que quando Roma fala, terminaram as contendas[12]; que é em Pedro que está a solução das mais difíceis questões da fé[13]”. Pela pena dos seus historiadores, a Igreja ensina-nos: “Que as controvérsias que agitaram o Oriente terminaram com o juízo da Igreja Romana[14]; que os hereges foram irrevogavelmente condenados pelas invioláveis decisões da Santa Sé apostólica[15]”. Pelos costumes da sua vida prática, a Igreja mostra-nos: que os bispos e os sacerdotes, imperadores, reis, povos, pedem ao Papa sentenças que esclareçam a sua fé e os livrem das obsessões do erro[16]. Pela voz dos seus concílios, a Igreja aclama, no Papa: “o guarda da fé[17], o órgão do Príncipe dos Apóstolos[18]; ensina a plenitude do primado dos sucessores de Pedro[19], e deduz daqui esta doutrina: “que o Pontífice romano goza plenamente, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, dessa infalibilidade que o divino Redentor quis que a sua Igreja fosse provida definindo a verdade relativa à fé e aos costumes, e, por conseguinte, que as definições do Pontífice romano são irreformáveis em si mesmas, e não em virtude do consentimento da Igreja[20]”.

            A infalibilidade pontifícia está, com efeito, intrinsecamente ligada ao soberano poder do chefe da Igreja. Este soberano poder, como já vos disse, é um sacramento vivo da própria autoridade de Deus. Ora, é à autoridade de Deus que pertence determinar o objeto da fé. Na ordem racional e científica, chegamos à determinação da verdade pela evidência dos primeiros princípios e da experiência; faltando-nos esta evidência desde que se trata de conhecer o mundo sobrenatural e os seus mistérios, é de necessidade que nos fale o eterno testemunho das coisas divinas. Mas, se Deus passou a autoridade infalível da sua palavra à Igreja para que ela o represente, não é evidente que esta autoridade deve residir toda inteira naquele que é na terra a sua mais viva, mais saliente, a sua suprema representação, e a quem todos chamam o seu Vigário? Não é evidente que esta representação será apoucada e que o soberano poder, em que todos convém, perderia totalmente o seu caráter, se, supondo que o Papa se engana, os cristãos, que ele deve governar, tenham o direito de desobedecer e esperar outras decisões? Com razão disse Santo Tomás: “É à autoridade do soberano Pontífice que pertence determinar em última instância o que é de fé: Ad eius auctoritatem pertinet finaliter determinare e aquae sunt fidei[21]”.

            Senhores, o bem da sociedade cristã e a realização das promessas que lhe garantem destinos imortais reclamam imperiosamente esta determinação da verdade pela autoridade infalível do chefe da Igreja.

            O bem da sociedade cristã, o mais ardentemente desejado, o mais amorosamente pedido, o mais solenemente prometido por Jesus Cristo, é a sua perpétua unidade. Ora, bem o sabeis, a unidade cristã é incessantemente combatida pelo erro. O erro não espera. Desde que abre caminho nas almas, prossegue-o com pérfido e ardente capricho. Ri-se das tempestades longínquas com que o ameaçam, se lhe deixam tempo de tomar posições inexpugnáveis. As assembleias religiosas que só dezenove vezes se puderam reunir desde a origem da Igreja, as longas e penosas consultas dos bispos dispersos, cujas decisões podem ser tão facilmente contestadas pela má fé, não são o bastante para sustar a rápida expansão das falsas doutrinas e preservar a sociedade cristã dos seus estragos. É necessário o raio, o raio instantâneo que esmaga e esclarece ao mesmo tempo. Ora, o raio instantâneo só nas mãos do Pontífice pode estar. Desarmai-o do seu privilégio, suas definições e decretos impotentes entregariam o rebanho de Jesus Cristo a todas as audácias do erro que, com mão implacável, rasga impunemente a gloriosa túnica da unidade cristã. Dir-se-á que é necessário obedecer ao Pontífice, porque é a primeira autoridade? Mas, se ele pode enganar-se, pode suster a expansão de uma verdade destinada a iluminar o dogma e encadear-nos ao erro. Ficaremos livres para suspeitar das suas decisões e esperar outras melhores? Mas o erro, orgulhoso pela impunidade, continuará a sua obra de destruição. As definições tardias dos Concílios ou da Igreja dispersa só brilharão sobre ruinas irremediáveis e só servirão para reunir, bem ou mal, os miseráveis restos da unidade desonrada. Não, não, o Cristo não podia expor a sua queria Igreja a tais aventuras. “Querendo a unidade constante da fé, diz o angélico Doutor, Jesus Cristo deveu prover a sua conservação pela sentença definitiva de um só[22]. Sentença tanto mais necessária hoje, quanto é certo que o erro, mais altivo e mais fecundo que nunca, possui os mais numerosos e rápidos meios de propagação.

            Eu sei, senhores, que o dogma da infalibilidade pontifícia, aceite por todos os cristãos de fé esclarecida, repugna a muitos homens honestos. Crer que um homem não se pode enganar, quando tão bem se conhecem as fraquezas e as misérias da natureza humana, revolta o seu bom senso. Estão mais inclinados a conceder uma espécie de infalibilidade à ciência e ao número, mas este privilégio concentrado num só parece-lhes uma enormidade inaceitável.

            Partilharia das suas repugnâncias, se não fossem o resultado da ignorância. – As fraquezas e as misérias da nossa natureza nada têm que ver com a infalibilidade, porque não é o Papa como homem que nós julgamos infalível, mas o Papa como Vigário de Jesus Cristo e sacramento vivo da sua autoridade divina. Ainda mais, nós limitamos a sua prerrogativa por um objeto preciso e circunstâncias determinadas, a que devemos atender sob pena de cairmos nos erros mais grosseiros. Ponhamos à parte, se assim o quereis, a infalibilidade pessoal, separada, absoluta, palavras cheias de equívocos e de que tanto se tem abusado e limitemo-nos a dizer, em harmonia com o princípio de união que acima estabelecemos, que a infalibilidade do soberano Pontífice é a mesma da Igreja. A Igreja é infalível no exercício de todos os seus poderes; o Papa igualmente.

            O Papa doutor é infalível, não quando exprime sobre um ponto de filosofia, de teologia, de história, de ciência, a sua opinião particular; mas quando, do alto da sua cadeira apostólica, define para toda a Igreja um ponto de doutrina que interessa a fé e os costumes.

            O Papa legislador é infalível, não quando administra a sua casa real e o seu domínio temporal, – se não lhe fora usurpado, – mas quando, do alto do seu trono pontifício, edita para o governo geral da Igreja, leis que podem não ser as melhores possíveis, mas que não ofendem nem a fé nem os costumes.

            O Papa é juiz infalível, não em toda a espécie de causas particulares, em que a própria prudência cristã pode ser enganada pela astúcia e pela intriga, mas quando, do alto do seu tribunal supremo, pronuncia definições para  toda a Igreja sobre as causas maiores em que estão empenhadas a fé, os costumes, a salvação da sociedade cristã.

            Fora disto, senhores, o Papa é homem como vós. Todos os dias fere o peito e diz com os mais humildes cristãos: Peccavi. O respeito da sua alta dignidade, o majestoso isolamento a que essa dignidade o condena, a constante lembrança de Deus que ele representa, a necessidade profundamente sentida de unir a autoridade da virtude ao poder do soberano mando, a unção do sacramento que faz do episcopado o estado dos perfeitos, a graça que Deus proporciona à sublimidade e à extensão dos seus deveres, tudo tende a preservar o Vigário de Cristo dessas quedas vergonhosas, e desgraçadamente muito frequentes, nas quais se revela a extrema miséria da natureza humana. Todavia esse homem, tão grande e tão protegido, não é impecável. Pode desonrar a tiara e afligir a Igreja com escândalos tanto mais funestos quanto é certo que parte de um lugar onde não se ouvem senão lições de santidade. Certamente que a mais vulgar honestidade nos deve inspirar o horror das calúnias interessadas, inventadas pela heresia e impiedade para desconceituar o soberano poder da Igreja, mostrando-o nas mãos duma longa série de prevaricadores; certamente que a piedade filial não nos permite renovar, sob pretexto de sermos fiéis à verdade histórica, o crime de Caim, publicando sem razão as faltas dos que foram os pais da família do Cristo; mas, a prudência e a lealdade cristã nos proíbe também essas apologias exageradas que contestam ou dissimulam fatos incontestáveis, e tendem a provar que a impecabilidade se assentou com a soberania da cadeira de São Pedro. Houve maus papas, não tenho nenhuma dificuldade em o confessar, porque o seu pequeno número faz avultar o grande número dos que foram bons, virtuosos, santos, e as suas faltas convertem-se em argumento do seu poder divino. As prevaricações dos reis têm muitas vezes arrastado as monarquias à sua ruina. E a Igreja pôde sofrer prevaricações da parte dos que a governam, mas nunca as potências do inferno comprometeram a sua indestrutível existência. Se o Cristo consente por vezes em ser representado por um homem perverso, é para melhor nos fazer ver como sabe, na corrupção do vício, preservar da corrupção do erro a cabeça augusta que realiza a unidade da sua obra e preside à vida da sociedade cristã. Nenhum dos monarcas espirituais que afligiram a Igreja com os seus escândalos lhe ensinou falsos dogmas ou uma moral pervertida.

            Por muito desfigurada que seja pelo pecado, a cabeça da Igreja, divinamente protegida, conserva, pois, o seu soberano e infalível poder sobre todo o corpo místico do Cristo. Não digais, senhores, que esta cabeça é monstruosa, e que a sua autoridade exagerada diminui a autoridade do episcopado e dos Concílios. Sob o governo supremo do chefe da Igreja, os bispos continuam sendo o que o Espírito Santo quis que fossem: verdadeiros pastores, destinados a apascentar a governar o rebanho que lhes está confiado; mandatários diretos de Deus, cujo múnus não se pode destruir; verdadeiros juízes, chamados a deliberar e pronunciar sentenças em todas as causas que interessam à fé e aos costumes; colaboradores obrigados e sempre respeitados, do grande rei a que assistem, e não comissários que arbitrariamente se podem suprir, simples conselheiros cujas ordens podem suprimir-se. Bem longe de eliminar o episcopado, o papado afirma solenemente a sua autoridade e os seus direitos, chamando-o em seu auxílio sempre que é necessário conhecer melhor a verdade, fazê-la resplandecer com mais brilho, impô-la mais fortemente, fulminar o erro com uma suprema maldição que o marque na fronte com o sinal de Caim, à vista de todo o mundo, manifestar a poderosa vitalidade da Igreja, para confundir os lúgubres profetas de Satã que, de tempos a tempos, anunciam a sua morte próxima[23].

            Sempre infalivelmente unido, governado e julgado pelo seu chefe supremo, o mundo cristão vê aparecer, em certas épocas, augustas assembleias nas quais toda a Igreja docente fala. Deixai que repita aqui o que, há treze anos dizia, nesta mesma cadeira: “Quando a palavra tranquila de um homem convencido já não baste para convencer, esgotados os recursos da eloquência do seu corpo: do seu coração, cada uma de cujas palpitações parece traduzir-se nas vibrações de sua voz, de seus olhos que brilham como relâmpagos, dos seus membros que repelem, atraem, abraçam, afirmam, previnem o pensamento e o desenvolvem. Assim, quando o ensino da santa, católica a apostólica Igreja de Roma, que, segundo a palavra de um grande bispo, ‘pode e deve bastar a todos os fiéis piedosos e dedicados[24]’, tem dificuldade em se fazer ouvir nas agitações do mundo, o chefe e os membros da Igreja falam juntamente. A sua união numa mesma definição é a manifestação suprema da majestade divina da Igreja, a suprema eloquência da sua autoridade infalível. Não há nada, nada pode haver mais imponente e mais forte no mundo: é algo semelhante ao que se deve passar no fim dos tempos, quando Jesus Cristo, para justificar o governo de Deus e vingar a sua glória ultrajada, vier sobre as nuvens do céu com um grande poder e uma grande majestade, cercado do senado apostólico trovejando com ele para julgar as tribos de Israel[25]”.

            Mas, sabei bem, senhores, que o que faz a grandeza e a força dos concílios, é a união intima do episcopado com o monarca sagrado em quem o Salvador concentrou, de algum modo, a vitalidade da sua Igreja. O vigor universal de toda a definição, de todo o decreto, de todo o juízo, depende do seu soberano poder. – Não é o orgulho do grande rei que dizia: “O Estado sou eu!” – Mas, se abstém de dizer: “A Igreja sou eu!” não é menos verdade que todo o edifício do Cristo repousa sobre ele como sobre a sua pedra fundamental, e que não se pode suprimi-lo sem abalar ou demolir com um mesmo golpe toda a sociedade dos filhos da redenção.

            Instruída pelo inferno, a impiedade, compreende tão bem como nós este profundo e santo mistério da unidade; e por isso é que contra o papado dirigiu sempre e dirige ainda os seus mais violentos ataques. A história está cheia da narração de brutais agressões de todos os poderes humanos, e nós temos à vista o desolador espetáculo das conspirações demagógicas contra a cadeira de Pedro. – Trono do rei das almas, tantas vezes ameaçado e ferido, não desmoronarás tu? É o grito do meu coração angustiado, sempre que ouço os ruídos sinistros do passado e as selvagens imprecações da hora presente. Mas, se a história me desanima, as promessas me alentam.

            Um dia que meditava sobre as glórias e as provas do papado, achei-me na presença de um estranho e admirável espetáculo. Seria um sonho da minha imaginação? Seria uma visão de Deus para animar a minha coragem? Não o sei; mas julguei ver diante de mim um mar imenso, agitado pela tempestade. No meio das suas ondas tumultuosas erguia-se um rochedo, cujo píncaro elevava até ao céu um edifício esplêndido cheio de luz e cânticos festivos. Erguia-se em pé e tranquilo, como se em roda dele só houvera a solidão e o silêncio. E as vagas, furiosas e espumantes, quebravam-se contra o rochedo; os monstros do abismo precipitavam-se sobre ele com todo o seu peso, e caiam abafados nas ondas; os navios de alto bordo feriam-no com a sua proa, e eram engolidos a seus pés; as águias e os abutres, seus companheiros de rapina, procuravam cravar as suas garras e as garras estavam todas ensanguentadas; milhões de parasitas colocavam-se aos seus lados para o roer, e morriam sem lograr o seu intento. Estava comovido: parecia-me que esta pedra imóvel vivia. Quem és pois? Lhe disse eu, quem és tu, tu a quem nada assombra, nem abala, nem divide? E, do seio do rochedo, saíram de repente estas palavras: Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam, et portae inferi non praevalebunt adversus eam.

Acesse a primeira parte do texto  aqui

[1] Si quis dixerit Romanum Pontificem habere tantum modo officium inspectionis vel directionis, non autem plenam et supremam potestatem jurisdictionis in universam Ecclesiam, non solum in rebus quae fidem et morem sed etiam in iis quae ad disciplinam et regimen Ecclesiae per totum orbem diffusae pertinent; aut eum habere tantummodo potiores partes, non vero totam plenitudinem hujus supremae potestatis; aut hanc ejus potestatem non esse ordinariam et immediatam sive in omnes ac singulas ecclesias, sive in omnes et singulos pastores et fideles: anathema sit. (Const. Concilii Vaticani. De Ecclesia Christi, cap. III)

[2] Discurso sobre a unidade da Igreja.

[3] Per sapientissimum magisterium vestrum, etiam aliis universis Ecclesiis personet et suscipiatur veritatis verbum et justitiae decretum. (Concil. Constantinop., IV. Epist. syn. ad Hadrian.)

[4] Manifestum est autem, quod quamvis populi distinguantur per diversas dioceses et civitates, tamen sicut est una ecclesia, ita oportet esse unum populum christianum. Sicut igitur in uno speciali populo unius ecclesiae requiritur unus episcopus, qui sit totius populi caput, ita in toto populo Christiano requiritur quod unus sit totius ecclesiae caput. (Summ. Cont. Gentes, cap. LXXVI. De Episcopali dignitate et quod in ea unus sit summus)

[5] Quoniam divino apostolici primatus jure romanus Pontifex universae Ecclesiae praeest, docemus et declaramus eum ea se judicem supremum fidelium, et in omnibus causis ad examen ecclesiaticum spectantibus ad ipsius judicium posse recurri. Sedis vero apostolicae, cujus auctoritate major non est, judicium a nemine fore retractandum, neque cuiquam de ejus licere judicare judicio. Quare a recto veritatis tramite aberrant qui affirmant licere ab judiciis Romanorum Pontificum ad oecumenicum concilium tamquam ad auctoritatem Romano Pontifici superiorem appelare. (Const. Concilii Vaticani, De Ecclesia Christi, cap. III)

[6] Summ. Theol., II, II Quaest., 1, a. 10, c.

[7] Simon, Simon, ecce Satanas expetivit vos ut eribraret sicut trificum: Ego autem rogavi pro te ut non deficiat fides tua: et tu aliquando conversus confirma fratres tuos. (Lucas XXII, 32)

[8] A gloriosissimis duobus apostolis Petro et Paulo Romae fundatae et constitutae Ecclesiae, eam quam habet ab apostolis traditionem et annuntiatam hominibus fidem, per successiones episcoporum pervenientem usque ad nos, indicantes, confundimus omnes eos, qu, quoquo modo, vel per sibi placentiam vel vanam gloriam, vel per coecitatem et malam sententiam praeterquam oportet colligant. (S. Irin., Contra haereses, lib., III, cap. 3)

[9] An quase unam eamdemque rem Petram et Ecclesiam? Hoc ego verum esse extimo: nec enim adversus Petram super quam Christus Ecclesiam aedificat, nec adversus Ecclesiam portae inferi praevalebunt. TEXTO EM GREGO. (Origen. in Math., tom. XII, nº 11)

[10] Neque enim aliunde haereses obortae sunt aut nata schismata, quam inde quod sacerdoti Dei non obtemperatur, nec unus in Ecclesia ad tempus sacerdos et ad tempus judex vice Christi cogitatur. (S. Ciprian., Epist. LV, ad Pap. Cornel.)

[11] Ipse Petrus, cui dixit Christus: “Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam” Ubi ergo Petrus, ibi Ecclesia. (S. Ambrósio., in Psalm., 30)

[12] Jam enim de hac causa duo concilia missa sunt ad sedem apostolicam. Inde etiam rescripta veneruut. Causa finita est. Utinam aliquando finiatur error. (S. Aagostinho, Serm. CXXXI)

[13] TEXTO GREGO (S. Epiph., Anchora, cap. IX) Omnibus quippe modis in eo stabilita fides est, qui coeli claves accepit, et in terra solvit et ligat in coelo. In eo siquidem subtiliores quaelibet fidei quaestiones reperiunt.

[14] Quo facto, utpote controversia. (De Trinitate consubstantiali) judicio romanae Eclesiae terminata, singuli quievere; coque quaestio finem tandem accepisse videbatur. (Sozomen., Hist. Eccles., cap. XXII)

[15] Praeter eas autem beatissimae et apostolicae sedis inviolabiles sanctiones, quibus nos Patres pestiferae novitatis elatione dejecta, et bonae voluntatis exordia, et incrementa probabilium studiorum, et in eis usque in finem perseverantiam, ad Christi gratiam referre docuerunt, etc. (Praeteritorum sedis apostolicae auctoritatis de gratia Dei et libero arbitrio. Obra atribuída por nós a S. Celestino, por outros muitos a S. Próspero de Aquitânia. (Migne, Patr. Lat., tom. LI, col. 206)

[16] Basta abrir qualquer História da Igreja para lá encotnrar a notícia destes recursos à Santa Sé.

[17] Coelestino custodi fidei… universa synodus gratias agit. (Concil. Ephes., Labbe, tom. II, col. 618)

[18] Post Lectionem praedictae epistolae (S. Leonis papae) reverendissimi episcopi clamaverunt: “Haec patrum fides, haec apostolum fides. Omnes ita credimus; orthodoxi ita credunt; anathema ei qui ita non credit: Petrus per Leonem locutus est.” (Concil. Chalced., act. II, Labbe, tom. IV, col. 368)

[19] Vid. na precedente conferência a definição do concílio de Florênça.

[20] Docemus et divinitur revelatum dogma esse definimus: Romanum Pontificem cumex cathedra loquitur, id est, cum omnium christianorum Pastoris et doctoris munere fungens, pro suprema sua apostolica auctoritate, doctrinam de fide vel moribus ab universa Ecclesia tenendam definit, per assistentiam divinam, ipsi in beato Petro promissam, ea infallibilitate pollere, qua divinus Redemptor Ecclesiam suam in definienda doctrina de fide vel moribus instructam esse voluit; ideoque ejusmodi Romani Pontificis definitiones ex sese, non autem ex consensu Ecclesiae, irreformabiles esse. (Const. Concilii Vaticani: De Ecclesia Christi, cap. IV) Citamos aqui apenas um pequeno número de textos. Há muitos. Enviamos os nossos leitores aos autores que tratam da infalibilidade do ponto de vista da tradição, podendo consultar a bela obra de Mgr. Latour d’Auvergne, arcebispo de Bourges: A tradição católica sobre a infalibilidade pontifícia.

[21] Summ. Theol. II, II Quaest., I, a. 10, c.

[22] Vide o texto citado no princípio desta conferência.

[23] Tantum abest ut summi Pontificis potestas officiat ordinariae et immediatae illi episcopali jurisdictionis potestati, qua Episcopi, qui positi a Spiritu Sancto in apostolorum locum, successerunt, tanquam veri pastores assignatos sibi greges, singuli singulos, pascnt et regnunt, ut eodem a supremo et universali Pastore asseratur, roberetur ac vindicetur, secundum illud sancti Gregorii Magni: “Meus honor est honor universalis Ecclesiae; meus honor est fratrum meorum solidus vigor. Tum ego vere honoratus sum, cum singulis quibusque honor debitus non negatur.” (Concil. Vatic. Consitut. dogmatica, De Ecclesia Christi, cap. II)

Episcopi in conciliis non consiliarii sunt, non consultores, sed veri judices; atque praeclare a Bellarmino dictum de conciliis Ecclesiae, concenssum episcoporum esse verum concenssum judicium. (Card. Seglia. Inst. juris publici praenot., § 35)

Veritas ipsa clarius renitescit et fortius retinctur, si illa quae jam prius fides per Pontificem docuit, et quae Deus nostro ministerio docuerat etiam fratrum firmantur consensu. (S. Leo. Mag. Epist. ad Theod.)

[24] Hinemar de Reims.

[25] Concilio et Jubilé. Quinquagésima Conf. Da Magestade e Autoridade do Concílio.

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