Não, ainda não é Pascoa!

O mundo cada vez mais ignora e despreza o sacrifício do Senhor e esta indiferença à Paixão e Morte de Cristo invade cada vez mais nossas vidas, atinge a sensibilidade de nós católicos.

Houve um tempo no qual as famílias guardavam a sexta-feira Santa com grande piedade, mal se podia pentear os cabelos, nãos de realizava nenhum trabalho braçal, rádios e televisões não eram ligados, crianças e adolescentes eram convidados à moderação, evitava-se risadas e brincadeiras, tudo porque naquele dia era a memória da Paixão do Salvador.

A santa liturgia católica rasga o tempo e coloca-nos, especialmente no Tríduo Pascal, de frente para cada um dos acontecimentos dos últimos dias de vida mortal de Cristo até a sua ressurreição.

Mas diante da atual relativização dos sinais, das celebrações, vivemos a Sexta-feira como um feriado qualquer, ou se não é dessa forma, cremos que tudo acaba quando se encerra a Ação Litúrgica da Paixão… Ignoramos por completo a profundidade do dia de hoje, do Sábado Santo

Não! Ainda não é Pascoa!

Liturgicamente, estamos imersos no período da ausência de Cristo! Vivemos o tempo da Sua descida à mansão dos mortos, onfe vai levar a Luz, que é Ele mesmo, a todos que jaziam nas trevas, vai em busca de nosso primeiro pai, Adão, para dizer: Vem!

Vivemos o tempo deste mistério profundo de um Deus que é eterno mas que na pessoa do Filho encarnado, morre. Ausência daquele que está sempre em todos os lugares.

Vivemos o tempo da terrível dor dos discípulos, pois seu mestre foi brutalmente morto! Tempo de inseguração, medo, incompreensão, tristeza, pois Cristo morreu.

Vivemos o tempo da dor inalcançável de uma mãe puríssima, a Santíssima Virgem Maria, que essa manhã, acordou – se é que conseguiu dormir – com a terrível dor de saber que não verá seu filho, não Lhe tocará as mãos, não ouvirá Sua voz, não sentirá Seu carinho por ela. Além da dor da execução injusta e desumana de seu filho, sente a dor de uma saudade que é incurável.

Cristo está no sepulcro, no silêncio do sepulcro, seu corpo dilacerado por amor de nós, um amor incompreensível do Pai por Seu Filho, do Filho por Seu Pai e desse amor entre ambos um amor apaixonado e incondicional por cada um de nós em particular.

E nós?

Nós, no afã de saciarmos nossas vontades, ignoramos toda essa realidade na qual estamos imersos por meio da liturgia, deixamos que o mero cumprimento do preceito nos mova ao invés de sermos movidos por um tremor e temor por tão profundos mistérios.

Queremos aproveitar o dia de sol;  preparar nosso churrasco – afinal passou-se a sexta sem comer carne – ; entupir a mente de todas as séries de tv possíveis; comer, até a intoxicação, chocolate; ouvir música até o último volume…. saciar de todas as formas possíveis nossas vontades.

Mas Cristo está no sepulcro, por mim e por ti!

Sejamos direto, no dia seguinte à morte de uma pessoa muito importante: mãe, pai, irmão… estaríamos eufóricos para fazer um belo almoço, para passar o dia inteiro na piscina, para beber quantidades homéricas de cerveja? Então por que agimos assim diante da morte de Cristo? Por que somos tão insensíveis a este tempo que a Liturgia nos insere?

Ah! Como desperdiçamos um tempo tão fértil de crescimento, de aprofundamento na fé, de amadurecimento no seguimento de Cristo, de pensarmos nas nossas culpas passadas, nos vícios atuais, naquilo que poderíamos mudar para retribuir melhor o amor imenso de Deus!!! Como nos adiantaríamos na intimidade de com Jesus se no silêncio de nossos corações voltássemos ao mistério da ausência de Nosso Senhor, da Sua solidão no sepulcro!

Acredite! Tanto mais seria frutuosa a nossa experiência com a Ressurreição quanto mais nos deixássemos envolver pela meditação deste período no qual Cristo não está entre nós!

Certamente, o Glória na Celebração da Ressurreição seria muito mais alegre, a experiência da vitória de Cristo sobre a morte adentraria na nossa alma com muito mais força! A Celebração de hoje à noite seria muito mais que uma celebração muito longa ou um celebração bonitinha que começa no escuro… Por que começa no escuro? Por que tantas leituras? Por que do Círio Pascal? Por que dos sinos? Tudo encontraria um sentido muito maior se não deixássemos de lembrar  (ou ignorássemos deliberadamente) que estamos ainda no Tríduo Pascal e que vivemos a incerteza diante da ausência do Salvador

Será que no domingo pela manhã estaríamos à porta do sepulcro de Cristo com Madalena ou estaríamos descansando da exaustão do dia anterior de passeios, divertimentos, comilanças; estaríamos nas primeiras horas da manhã com Maria Madalena ao lado do Sepulcro ou estaríamos curando nossa ressaca?

Lutemos contra a impiedade do mundo! Lutemos contra o esvaziamento do Mistério da Paixão e Morte de Cristo! Vivamos este período litúrgico que pelo qual a Esposa de Cristo nos coloca diante da entrega de Cristo, e hoje, dentro deste período, ainda não é Pascoa.

Wellington Vieira

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