Lectio Divina – Terça-feira Santa

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

“Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade, te digo: o galo não cantará antes que me tenhas negado três vezes”. (Jo 13, 38)

 

Era noite! (Jo 13, 29) assim diz o evangelho de hoje. A noite de Pedro, e sem dúvida, essa foi à noite mais terrível à sua memória de apóstolo. Ele que deixou tudo para seguir mais de perto Jesus se vê diante da cena mais triste de sua vida, tanto que Lucas em seu evangelho diz que ele “chorou amargamente” ( Lc 22, 62).

Ao negar Jesus, ele não só deixa de afirmar conhecer fisicamente uma pessoa, não!  Ele nega o profundo significado de sua existência: ser apóstolo, uma testemunha da vida de Nosso Senhor. Aquele que confessa a divindade de Cristo, no ato de negá-Lo, nega também sua vida honesta, sua vocação, as esperanças que Deus colocou nele, seu futuro: tudo se desfez.

Como podes Pedro dizer que não conhece este homem?

É, caríssimos leitores, negar é um ato terrível e danoso à alma.

Vamos tentar jogar um pouco de luz a essa noite de Pedro.

Quando lemos este evangelho à impressão que se dá é que ele viu num relance muito rápido tudo de forma clara: a santidade de Jesus e sua condição de homem pecador.

O pecado, seja ele em maior ou menor grau, é sempre uma negação de Cristo. O pecado é a grande ruína do homem. É por isso que temos que lutar arduamente auxiliados pela graça, para evitar todos os pecados, sejam os graves, os veniais deliberados ou até mesmo aqueles que tratamos com indiferença como a malícia, à fragilidade ou ignorância.

Mas até do pecado, se tivermos a infelicidade de cometê-lo, devemos colher frutos, porque a contrição fortalece a amizade com o Senhor. Nossos erros nunca devem desencorajar-nos se nos comportarmos com humildade. Um sincero arrependimento é sempre a ocasião de um novo encontro com o Senhor, do qual podem surgir consequências inesperadas para nossa vida interior. Se pecamos devemos retornar ao Senhor quantas vezes for necessário, sem angústia, mas com dor.

O céu está cheio de pecadores que souberam se arrepender.

Mas voltemos à figura de Pedro. Pedro poderia ter notado que, à medida que se aproximava o momento da morte de Cristo na Cruz, a perspectiva dessa morte, que Jesus já afirmara repetidas vezes ser absolutamente necessária, o vinha deixando cada vez mais perplexo e tristonho. Poderia ter notado que ia crescendo no seu coração a relutância em aceitá-la.

Poderia ter reparado que essa relutância estava tornando difícil sua relação com Jesus, o diálogo profundo com Ele. Que desse modo seu coração ia se tornando torpe e os desejos de um seguimento incondicional de Cristo, abalando-se assim as bases da sua lealdade. Poderia ter dado ouvidos ao Senhor quando Jesus o advertiu do perigo da sua fraqueza. Deveria ter percebido que se estava afastando de Cristo, que o estava seguindo “de longe”, ia se tornando cada vez mais fraco. A presunção fez isso, passou a confiar demais em si mesmo e, por isso, quando o momento da prova chegou, encontrou-se sozinho e desamparado, sem a ajuda de Cristo e da sua Santíssima Mãe, com a qual teria podido contar se tivesse crescido em humildade.

 

Na realidade, nunca há quedas “instantâneas”. Como bem ouvi certa vez “a natureza não atua por golpes teatrais”. Dessa maneira, a queda repentina de uma alma no pecado só é repentina aparentemente; na realidade, é fruto de um obscuro trabalho anterior.

Pedro é hoje o exemplo mais claro de como devemos lutar contra nossas tendências e fraquezas, que nunca devemos ser presunçosos a ponto de lutar com nossas próprias forças. Quantos de nós católicos agimos dessa forma, vivemos como se não necessitássemos diariamente de vida de oração, de vida sacramental constante, de bons amigos, de uma boa direção espiritual.

Infelizmente a presunção faz cair a muitos no pecado, é um pecado obscuro, quando não, os levam a abandonar tudo: Igreja, sacramentos, vida de oração, apostolado, enfim, todo o maravilhoso amor de Deus que foi semeado em seus corações.

Era noite! Essa foi à noite de Pedro. Mas teremos também a nossa noite e, ao contrário do apóstolo devemos nos preparar bem para quando ela adentrar nossa vida estejamos fortes em Deus, em sua graça e em seu amor.

È preciso insistir na advertência do Senhor no Horto da Oliveiras, “vigiai e orai para não cairdes em tentação”. Vigiai: procurando afastar as ocasiões de pecado, sem dar ouvidos às bravatas fanfarronas de uma autoconfiança orgulhosa; saindo rapidamente do terreno de ação das pequenas fraquezas consentidas; apagando o fogo das paixões ruins quando está no início e pode ser facilmente dominado… E orai: mantendo um diálogo ininterrupto com o Senhor, que nos permita enxergar tudo com os olhos da fé, e garanta uma constante identificação da nossa vontade com a de Deus, enxertando a nossa fragilidade na sua fortaleza.

 

Gostaria de terminar lembrando uma cena do filme da Paixão, de Mel Gibson, quando depois de Pedro ter negado ele sai correndo chorando, e  no meio do caminho encontra João, a virgem Maria e Maria Madalena, e ele cai aos pés daquela que é conhecida como o refúgio do pecadores, como que entrando em seu Coração Imaculado para ser guardado de um terrível destino, tal como o de Judas.

Coragem, afinal de contas, “Deus ama o coração dos fracos”.

Laus Deo in aeternum

Walter Silva

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