Lectio Divina – Sexta-feira Santa – Paixão do Senhor

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Dentre tantos pontos a se meditar neste dia, gostaria apenas de frisar em breves palavras apenas um que nos recorda a carta de São Paulo ao Filipenses, quando nos mostra a extremidade em que Jesus em seu amor chegou para nos salvar do pior mal que existe e que está enraizado dentro do coração do próprio homem.

“Humilhou-se a Si mesmo” ( Fl 2, 8b), mas antes quero trazer a memória de vocês uma breve historia verídica, que está gravada nos umbrais dos tempos.

Era o ano 630 d.C., ano em que o imperador de Bizâncio, Heráclio, tendo derrotado o rei persa Cosroas, recuperou a relíquia da Santa Cruz, que este havia levado de Jerusalém catorze anos antes. Quando se tratou de reconduzir  a preciosa relíquia à basílica erguida por Constantino no Calvário, deu-se um fato singular que a liturgia recorda com a festa da exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro. “Heráclio – lia-se outrora no ofício desta festa – todo recamado de ouro e pedras preciosas, preparava-se para atravessar o limiar da porta que levava ao Calvário, mas não conseguia. Quanto mais se esforçava por avançar, mais se sentia como pregado onde estava. Estupor geral. Então o bispo Zacarias fez notar ao imperador que talvez aquele traje triunfal não condissesse com a humildade com que Jesus Cristo transpusera aquela soleira carregando a Cruz. Imediatamente, o imperador despojou-se dos seu trajes luxuosos e , de pés descalços, vestido como um cidadão comum, perfez sem dificuldade o restante do caminho e chegou ao lugar onde a Cruz devia ser posta.( Raniero Cantalamessa “Nós pregamos Cristo Crucificado”, edições Loyola, 1996)

Este episódio é a origem remota do rito seguido pelos nosso Papa, nossos Bispos e padres que, adentro a liturgia de hoje, despojado de seus paramentos e descalço caminharão rumo à Cruz, beijarão e se prostrarão. Mas, esse fato tem sim um significado além de simbólico, também espiritual, e que diz respeito a todos, mesmo para quem não vai descalço beijar a Cruz. Este gesto profundo e belo que a liturgia nos conduz neste dia quer nos ensinar que não é possível abeirar-se do crucificado quem antes não se despojou de todas as suas pretensões de grandeza, de suas vaidades, de sua mesquinhez; numa só palavra, do próprio orgulho e prepotência. Simplesmente não é possível, e mesmo se assim formos, seremos invisivelmente rechaçados por ela.

É preciso que no dia de hoje aprendamos duas coisas de suma importância a nós cristãos que iremos adorar a Santa Cruz, e são duas coisas bem simples: a primeira, é que precisamos lançar-nos aos pés do crucificado igual aquela mulher que quebrou o vidro de nardo puro (cf. Mt 26, 6-13) , e ali quebrar esse vaso que é todo o nosso orgulho; segundo, revestir-nos da humildade de Cristo que “sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” ( cf. Fl 2, 6-8) para com Ele voltarmos para as nossas vidas perdoados, justificados, graças ao Seu preciosíssimo Sangue, tal qual o publicano d tempo (cf. Lc 18, 14).

No profeta Isaías, lemos essas palavras:

“A arrogância dos homens será abatida,
e o seu orgulho será humilhado.
Somente o Senhor será exaltado
naquele dia”. (Is 2, 17)

“Aquele dia” é hoje. É hoje o dia em que Cristo Nosso Senhor proclamou do alto da Cruz que “tudo está consumado” ( Jo 19, 30), mistério esse tão singular que a liturgia atualiza no tempo a sua eficácia.

E se perguntássemos: como é que Deus abateu o orgulho dos homens? Diriam alguns, muitos até que foi com o Seu poder e glória divina que o abateu aniquilando os orgulhosos. O que muito não conseguem enxergar é que Seu poder vence-o através do Seu aniquilamento. Sim, Deus venceu o mal que há em nós não nos aniquilando, mas aniquilando-se totalmente. Humiliavit semeptisum: humilhou-se a si mesmo, não a nós homens. Belíssimo Amor de Deus! Abateu o orgulho do homem por dentro e não por fora. E como se humilhou!

Não devemos nos iludir com o esplendor da liturgia de hoje, nem dos cânticos, toda a solenidade que é cercada a Cruz. Tempos houve que a cruz nada era de tudo isso, mas pura infâmia. Uma coisa que se devia manter afastada não só dos olhos, mas até dos ouvidos (cf. Cícero, Pro Rabirio)

A Cruz é o abismo que se abisma todo o orgulho humano. A Cruz é dos simples de coração, dos que não tem medo de amar, de perdoar, de ser quem são.

Onde esta a parte que nos diz respeito em tudo isso?

Significa como já diz a velha máxima: “Reconhece o que fazes, imita o que celebras – Agnoscite quod agitis, imitemini quod tractatis”, significa: realizai dentro de vós aquilo que exteriormente representais, fazei o que comemorais!

Em palavras simples caríssimos irmãos(as): é preciso que eu entregue a Cristo crucificado “o corpo do meu orgulho”.

Uma só pessoa no mundo, além de Jesus, tem noção exata do que é a Cruz: Maria, sua mãe. Ela carregou com ele o “opróbrio da cruz” (Hb 11, 13). Todos os santos, desde os primórdios do cristianismo, de São Pedro e São Paulo, inclusive os mártires que derramaram seu sangue, todos, conheceram “o poder da Cruz” (1 Cor 1, 18), Ela conheceu também a sua fraqueza; todos os outros conheceram a teologia da Cruz, Ela, a sua realidade.

Supliquemos assim à Virgem da Dores a graça do Stabat Mater – estar de pé aos pés da Cruz -, pois, só assim conseguiremos chegar a alcançar a estatura de Cristo, que é a sua humildade.

Laus Deo in aeternum

Walter Silva

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