Lectio Divina – Quarta-feira Santa

“O Amor não é amado”, gritava aos prantos S. Francisco. “O Amor não é amado!”

Não sei em que situação ou momento estás lendo esta lectio divina, mas independentemente de que forma o estejas fazendo, gostaria de pedir que relesses a exclamação de S. Francisco. Uma, duas, três vezes… releia… e agora te convido a fechar os olhos por alguns momentos repetindo esta sentença com toda a tua alma: “O Amor não é amado”.

Ele ofereceu as costas para que lhe batessem e as faces para lhe arrancassem a barba: Ele não desviou o rosto de bofetões e cusparadas, mas Ele, o servo sofredor, o Amor, não é amado. Por um amor infinito ao Pai, o Filho carregou sobre Si os nossos insultos a Deus, pois a fonte do amor do Cordeiro de Deus por nós é o Seu amor ao Pai Celeste, mas Ele que traz sobre os ombros o peso dos nossos pecados não é amado.

Tu que lês estas linhas, volte teu coração, tua razão, todo o teu ser para esta realidade que nos traz o Evangelho de hoje, Cristo sabia que sua hora havia chegado, a hora de sofrer por nós havia chegado: a agonia no Monte das Oliveiras, todo o sofrimento da flagelação, a dolorosa coroação de espinho, o cruel carregamento da cruz, toda dor e suplício da crucificação; sim, Ele sabia que a hora destes acontecimentos havia chegado. O momento de consumar a Sua vida pelo gênero humano havia chegado.

Mas não deixeis que a linguagem genérica faça-te insensível; Cristo é Deus, quando Ele diz que sua hora havia chegado, sabe que não chegara para sofrer somente para aqueles que eram Seus contemporâneos… Sua hora chegara para sofrer por todos os homens de todos os tempos e épocas, chegara para sofrer por mim, por ti, por cada um que vive neste momento presente; chegara a hora de sofrer com o peso dos meus pecados, dos teus pecados, dos pecados dos que nos cercam, de todos aqueles que vieram antes de nós e que ainda virão. E ao olhar para todo o espaço temporal, sabe Ele, Jesus, o Amor, que não é amado, que não recebe sequer gratidão.

Cristo realiza a Última Ceia com os discípulos, e já ali entrega-se por inteiro, dá a Si mesmo como alimento, sabe ali, durante Seu Sacrifício incruento, mas não menos doloroso, que Judas o trairá; sabe que esta traição perpassará os séculos e será vivida de diversas formas por inúmeras pessoas, que chegará até nossos tempos, e nós aqui e agora, seremos muitas vezes aquele que colocará a mão no prato com Ele. Mais que isso, Cristo sabe que Seu Sacrifício perpetuado e atualizado na Liturgia será blasfemado, desprezado; que Ele próprio será vilipendiado na fragilidade do véu do Sacramento, que será esquecido nos sacrários e recebido de forma irreverente e impiedosa. Mas Ele quer se dar, Seu amor por ti, por mim, por todos os homens é infinito. Ele deseja ardentemente se dar, mesmo sabendo que Ele, o Amor, não é amado.

Sim, meu caro, é preciso que mergulhes profundamente nesse mistério!! É preciso que abras os olhos, o coração, a mente, a alma, todo o teu ser para isto!! Pense! Medite! Contemple! Cristo sendo Deus conhece toda infidelidade, desamor, desprezo, todas as traições de cada alma desde o primeiro homem até o último no final dos tempos e mesmo assim quer se dar, quer sofrer tudo, quer se dar como alimento, quer carregar o peso das injúrias, Ele quer morrer por todos e por cada um em particular. Pare neste momento e tente ao menos pensar na infinitude desse amor. Pare um pouco de ler e pense como esse amor transborda o infinito! Pense em como Cristo, o Amor encarnado e crucificado, não é amado.

Que esta quarta-feira Santa nos leve a pensar em como eu, tu, todos os homens de todos os tempos somos tão lentos e mesquinhos em amar o Amor, para que diante desta constatação, mais do que não ser aquele que, mesmo estando à mesa com Cristo e por vezes alimentando-se do Seu Corpo, coloca a mão no prato com Ele como sinal de traição, possamos transformar nossas vidas num ato de reparação pelo Amor que não é amado.

Wellington Vieira

Leituras
1ª Leitura – Is 50,4-9a
Salmo – Sl 68, 8-10. 21bcd-22. 31. 33-34
Evangelho – Mt 26,14-25

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