Lectio Divina – Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Chegamos à semana mais importante da Igreja de Cristo, chegamos ao período litúrgico no qual celebraremos os mistérios profundos da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor; mais que isso, pela Liturgia da Santa Igreja tornar-se-ão presente tais mistérios diante de nós nesta semana.

A liturgia de hoje nos leva da efusiva recepção a Jesus em Jerusalém à Sua ignominiosa morte no madeiro da Cruz. Talvez essa realidade nos passe despercebida devido à  euforia que nos contagia pela procissão, ramos, cantos de hosana e, por vezes, uma missa campal. Mas não podemos deixar que nos escape este caminho de Nosso Senhor.

Na liturgia Tridentina a Quinta Semana da Quaresma é chamada de Semana da Paixão, cada um dos dias da semana é identificado como dia da paixão, ou seja, Segunda da Paixão, Terça da Paixão e assim sucessivamente, até que se chegue ao Domingo de Ramos do Tempo da Paixão; dessa forma, ao chegar à celebração de hoje o fiel, naturalmente, está mais suscetível a não desviar os olhos do caráter do Sacrifício do Senhor destes dias. Na liturgia ordinária, para auxiliar os fiéis sobre esta realidade, a Igreja deixa claro na identificação da celebração que estamos no Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor.

Devemos sim, exaltar a Cristo, aclamá-lo com ramos, na verdade, todas as orações da Esposa do Cordeiro neste dia nos convocam a isso, as Laudes deste domingo cantam louvores a Deus, o Evangelho que antecede a Procissão nos convida a imitar a recepção dos que estavam em Jerusalém a Jesus.

Entretanto, quando entramos no Santo Sacrifício da Missa, o tom muda: temos Isaías profetizando toda a humilhação de Jesus, o Salmo nos fala do abandono, do vilipêndio que o justo sofrerá; na segunda leitura S. Paulo nos fala da Kenosis, do esvaziamento completo de Cristo; e tudo culmina no relato evangélico da entrega de Cristo por nós.

A Liturgia de hoje pode nos levar a meditar no quanto somos imitadores daqueles que receberam Jesus em Jerusalém. Exaltamos exteriormente a Deus – levantamos nossos ramos – através dos nossos adesivos em carros, tatuagens com temas religiosos pelo corpo, textos bíblicos em publicações nas redes sociais, nas camisetas com santos, nos terços pendurados nos retrovisores ou na mochilas…

Mas assim que o discurso de Cristo se torna mais forte, que seu ensinamento exige de nós uma decisão firme, oferecemos-Lhe a humilhação da nossa indiferença: não abandonamos as situações de pecado, voltamos as costas para castidade, acomodamo-nos com a pornografia; aderimos a ideologias condenadas pela Igreja; apoiamos assassinatos de crianças no ventre materno; para nossa conveniência aceitamos roubos na energia elétrica, água e internet, uso de anticoncepcionais, desonestidades nos nossos empregos; em favor do nosso bem estar social relativizamos a nossa fé, reduzimos Cristo a um militante político, não buscamos alertar os que nos cercam de seus pecados, concordamos com todo tipo de discurso que busca destruir os valores e a moral cristã: ideologia de gênero, poligamia, redução do gênero humano ao patamar de um animal irracional.

A Liturgia de hoje quando nos convida a gritar: “Crucifica-o, crucifica-o”, infelizmente, está certa, pois, embora não o façamos com nossas palavras no dia-a-dia, o fazemos constantemente com nossas atitudes. Sim! Ao voltarmos as costas às exigências de amor que Cristo nos pede, engrossamos o coro dos que pedem a sua morte. Embora não gritemos literalmente para que se solte Barrabás, fazemo-lo todas as vezes que sucumbimos às nossas paixões, às nossas vontades em detrimentos às de Deus, aos nossos caprichos, aos nossos desejos de estima pública, à nossa preguiça espiritual, às nossas contestações aos ensinamentos da Igreja; pois escolhemos, preferimos o nosso agitador interior: o nosso ego, nosso orgulho. Em suma, nossas ações diárias são os gritos que condenam Cristo a uma morte de Cruz, humilhado e abandonado.

O que fazer então? Permanecermos imitando em tudo os que receberam a Cristo em Jerusalém? Certamente, que não!

Na condição de quem crê que Cristo é Deus, devemos ovaciona-Lo e adorá-Lo com todo nosso coração; na condição de cristãos, ou seja, de ser outro Cristo, devemos ter olhar de Jesus que sabe que, apesar dos louvores e agrados efêmeros do mundo que o circudam, o triunfo deverá ser precedido da humilhação até a morte e; na condição de católicos (que, obviamente, engloba perfeitamente as condições anteriores) devemos resistir a todas as distrações exteriores e permitir que a Liturgia de hoje, a atualização da Paixão de Cristo, eleve os nossos corações ao Mistério de Amor de um Deus que se consome por inteiro para nos salvar e reabrir as portas do Céu para convivermos com Ele por toda Eternidade.

Não fosse hoje Domingo de Ramos, comemoraríamos a Festa da Encarnação do Verbo, mas que linda providência divina: permitir-nos iniciar a Magna Semana Litúrgica no dia que Deus se fez homem com um profundo objetivo – Dar a Sua vida por nós. Portanto, que esta Semana Santa seja, pela intercessão da Virgem, verdadeiramente santa.

Wellington Vieira

Ajude-nos a Evangelizar. Compartilhe este post:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *