Lectio Divina – Domingo da Páscoa

No livro do Apocalipse encontramos a seguinte expressão: “Eis que faço nova todas as coisas” (cf. Ap 21,5). Podemos dizer que esta expressão é justamente o que Nosso Senhor fez com a “páscoa” do Antigo Testamento, que celebravam a passagem da escravidão do Egito à liberdade da Terra Prometida. A Páscoa instituída por Cristo é a realidade nova da ressurreição do Filho que doa a vida e vence a morte, abrindo-nos a possibilidade de fazer a mesma passagem em direção à vida eterna.

A páscoa precisa nos ‘atingir’ não meramente como um símbolo ou algo simplesmente que está no nosso calendário litúrgico. Ela é passagem, precisamos ressuscitar com Cristo. Há três dias celebrávamos a sua morte, mas não temos que ficar lá, muito pelo contrário. Maria Madalena foi ao sepulcro logo de manhã, ainda não tinha compreendido, se é que tinha conhecimento da, Sua ressurreição. Ao chegar, se depara com o sepulcro aberto e o corpo do Mestre não estava lá. Fica atônita, corre ao encontro de “Pedro e o discípulo amado” para lhes dar a notícia, eles não fazem diferente também correm para ver se de fato tinha acontecido o que ela havia dito. “Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.

Quero fazer referencia aqui de um texto que li há algum tempo. “Por que Jesus dobrou o lenço que cobria a sua Face no Sepulcro?”

“Para poder entender a significância do lenço dobrado, temos que entender um pouco a respeito da tradição hebraica da época. O lenço dobrado tem a ver com uma dinâmica diária entre o amo e o servo – e todo menino judeu conhecia bem essa dinâmica. O servo, quando preparava a mesa de jantar para o amo, procurava ter a certeza de fazê-lo exatamente da maneira desejada pelo seu senhor. Depois que a mesa era preparada, o servo ficava esperando fora da visão do amo até que ele terminasse a refeição. O servo não se atreveria jamais a tocar na mesa antes que o amo tivesse acabado. Ao terminar, o amo se levantaria, limparia os dedos, a boca e a barba, embolaria o lenço e o jogaria sobre a mesa. O lenço embolado queria dizer: “Eu terminei“. Agora, se o amo se levantasse e deixasse o lenço dobrado ao lado do prato, o servo não ousaria tocar ainda na mesa, porque aquele lenço dobrado queria dizer: “Eu voltarei!” MAGNÍFICO!!!

Falemos um pouco de Simão Pedro, por que ele tinha que ouvir esta notícia? Ele é o primeiro, ele é o Chefe da Igreja: “te dareis as chaves…” a chave é símbolo de autoridade. E, só ele tinha esta autoridade de pregar e anunciar a Ressurreição do Messias, pois a recebeu de Jesus: “Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em seu poder.” (Atos 2, 24). Neste domingo, a Igreja, pela autoridade de Cristo, celebra a Páscoa: ‘o sepulcro vazio’.

“Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.”

Para nós, católicos, é bem simples “crer” na ressurreição, pois existe uma gama de documentos, e, escritos deixados por nossos pais na fé, e, acima de tudo as Escrituras nos asseguram. Mas, para a época não foi tão simples assim, tanto é que foi enviado guardas para proteger o sepulcro, pois para os sacerdotes daquela época os discípulos de Jesus poderiam vir roubar o corpo para simular então uma ressurreição; não foi como eles pensaram, pois o próprio Deus tomou o encargo de fazê-lo. “E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve. Vendo isto, os guardas pensaram que morreriam de pavor.” Mateus 28, 2-4. A ressurreição é um fato histórico: “a fé na ressurreição de Cristo se alimenta em fatos históricos irretorquíveis. A experiência direta dos Apóstolos foi bem registrada por São João: “O que vimos, ouvimos e as nossas mãos apalparam isto atestamos” (1 Jo 1,1-2). Jesus ressuscitado apareceu a Madalena (Jo 20, 19-23); aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-25), aos Apóstolos no cenáculo, estando ausente Tomé (Jo 20,19-23); novamente aos seus epígonos, presente Tomé (Jo 20,24-29); perto do Lago de Genezaré (Jo 21,1-24); no Monte na Galiléia (Mt 28,16-20); a mais de 500 pessoas (1 Cor 15,6) e a Tiago (1 Cor 15,7).”

Voltando ao que disse acima, ‘a páscoa precisa nos atingir’. É fato que precisamos ressuscitar com Cristo nesta e em todas as páscoas que celebrarmos. Ser atingido é ser tocado, pensemos numa pessoa que é atingida por um raio, por exemplo, sabemos do fim dela. A Páscoa precisa nos atingir como um raio, mas ele nos “consumirá” como aconteceu com a sarça ardente (cf. Ex 3,6), queimava, mas não destruía. Assim é o que acontece com quem ressuscita com Jesus, sua matéria continua a mesma, mas seu interior precisa ser renovado, ressuscitado.

Celebremos hoje e todos os domingos a Ressurreição de Nosso Senhor. Hoje, de maneira muito particular, pois é sabido por nós que: “De fato, ‘nós’ ainda não tínhamos compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.”

Tomo a liberdade de terminar essa lectio com a canção: “Eis que faço novas todas as coisas. É vida que brota da vida,é fruto que cresce do amor,é vida que vence a morte,é vida que vem do Senhor. Deixei o sepulcro vazio,a morte não me segurou.a pedra que então me prendia no terceiro dia rolou. Eu hoje lhe dou vida nova,renovo em ti o amor.lhe dou uma nova esperança,tudo o que era velho passou.”

V.: Regina coeli, laetare, Alleluia:

R.: Quia quem meruisti portare, Alleluia:

V.: Resurrexit, sicut dixit, Alleluia:

R.: Ora pro nobis Deum, Alleluia.

V.: Gaude et laetare, Virgo Maria! Alleluia!

R.: Quia surrexit Dominus vere! Alleluia!

 

 

Hélder Rodrigues

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