Quaresma: vivendo sabiamente.

A Quaresma é um tempo de conversão, de busca intensa de Deus. Não devemos entender a quaresma como um tempo pesado de muitas penitências e exercícios espirituais, mas um tempo de graça e extraordinária riqueza espiritual. É um tempo de maior ascese sim, mas uma ascese que nos abre para a mística, para receber as luzes de Deus. Um tempo para escutá-lo e tomar uma direção segundo sua vontade.

Não devemos nos acostumar com o tempo quaresmal o vendo apenas de forma rotineira como mais uma quaresma na nossa vida no decorrer de muitas que já passamos e que nada mudou. Não devemos passar a quaresma, devemos viver a quaresma! Essa quaresma é única na nossa vida! Devemos vivê-la como se fosse a única, a primeira e a última de nossas vidas!

E viver frutuosamente a quaresma não significa apenas ir cumprindo um amontoado de práticas vazias sem um sentido real. As práticas são importantes, mas são apenas meios e devem servir para nossa ascese, para nos abrirmos para a graça Divina. Elas alimentam nossa alma para levarmos vida interior buscando as virtudes e uma sincera conversão. Porém se vivermos as práticas apenas de forma exterior achando que vamos comprar a santidade ou outra graça com estas práticas seríamos no mínimo os mais ignorantes quanto ao entendimento do caminho de santidade. Entender a quaresma assim seria minimizá-la e perder a graça que este tempo nos proporciona.  Que o Senhor nos livre de tal ignorância e de ouvir Dele: “Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim e o temor que ele me testemunha é convencional e rotineiro.” (Is 29,13)

Neste tempo especial de graças que é a Quaresma devemos aproveitar ao máximo para fazermos uma renovação espiritual em nossa vida. O Apóstolo São Paulo insistia: “Em nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!” (2 Cor 5, 20);  “exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão. Pois ele diz: Eu te ouvi no tempo favorável e te ajudei no dia da salvação (Is 49,8). Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação.” (2 Cor 6, 1-2).

Cristo jejuou e rezou durante quarenta dias (um longo tempo) antes de enfrentar as tentações do demônio no deserto e nos ensinou a vencê-lo pela oração e pelo jejum. Da mesma forma a Igreja quer ensinar-nos como vencer as tentações de hoje. Daí surgiu a Quaresma.

Na Quarta-Feira de Cinzas, quando ela começa, os sacerdotes colocam um pouquinho de cinzas sobre a cabeça dos fiéis na Missa. O sentido deste gesto é de lembrar que um dia a vida termina neste mundo, “voltamos ao pó” que as cinzas lembram. Por causa do pecado, Deus disse a Adão: “És pó, e ao pó tu hás de tornar”. (Gênesis 2, 19)

Este sacramental da Igreja lembra-nos que estamos de passagem por este mundo, e que a vida de verdade, sem fim, começa depois da morte; e que, portanto, devemos viver em função disso. As cinzas nos lembram que após a morte prestaremos  contas de todos os nossos atos, e de todas as graças que recebemos de Deus nesta vida, a começar da própria vida, do tempo, da saúde, dos bens, etc.

Esses quarenta dias, devem ser um tempo forte de meditação, oração, jejum, esmola (caridade), práticas que a Igreja chama de “remédios contra o pecado”. É tempo para se meditar profundamente a Bíblia, especialmente os Evangelhos, a vida dos santos, viver um pouco de mortificação (cortar um doce, deixar a bebida, cigarro, passeios, churrascos,  a TV, alguma diversão, etc.) com a intenção de fortalecer o espírito para que possa vencer as fraquezas da carne.

Embora este seja um tempo de oração e penitência mais profundas, não deve ser um tempo de tristeza, ao contrário, pois a alma fica mais leve e feliz. O prazer é satisfação do corpo, mas a alegria é a satisfação da alma.

Uma prática muito salutar que a Igreja nos recomenda  durante a Quaresma, uma vez por semana, é fazer o exercício da Via Sacra, na igreja, recordando e meditando a Paixão de Cristo e todo o seu sofrimento para nos salvar. Isto aumenta em nós o amor a Jesus e aos outros.

Não podemos esquecer também que a Santa Missa é a prática de piedade mais importante da fé católica, e que dela devemos participar, se possível, todos os dias da Quaresma. Na Missa estamos diante do Calvário, o mesmo e único Calvário. Sim, não é a repetição do Calvário, nem apenas a sua “lembrança”, mas a sua “presentificação”; é a atualização do Sacrifício único de Jesus. A Igreja nos lembra que todas as vezes que participamos bem da Missa, “torna-se presente a nossa redenção”.

Assim podemos viver bem a Quaresma e participar bem da Páscoa do Senhor, enriquecendo a nossa alma com as suas graças extraordinárias; podendo assim ser melhor e viver melhor.

Por Helder Rodrigues

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