O Cristo torturado e os cristãos torturadores

Esta reflexão é sobre a alcunha moderna de Jesus como “baderneiro”, “contra-revolucionário”, “de esquerda”, “contra o sistema” e demais adjetivos que soam até pejorativos diante de sua Realeza. Não é comum ver argumentos pueris como o “passa o ano todo falando ‘bandido bom é bandido morto’ e na páscoa quer relembrar o homem que foi torturado e morto como um bandido” e suas variações igualmente falaciosas. Durante o período eleitoral de 2018 surge, baseado na mesma lenga-lenga, nas redes sociais mais uma versão: “Cristão que tortura Jesus e apoia o torturador”…

Aos que pensam assim, ateus e – principalmente – os ditos “católicos não praticante” é preciso um olhar muito maior sobre o tema e analisar as premissas desta afirmação para não ouvir a voz da serpente.

Só podem haver 2 motivos para um pensamento raso como este: ou não se conhece a contento as Escrituras Sagradas, ou, as conhecendo, negligencia-se todo os seu contexto histórico e teológico intencionalmente. Isso mesmo! Ou não se entende premissas básicas da história e da teologia ou, de má-fé, as finge não conhecer para legitimar estas afirmações. Não foge disso.

Esta reflexão direciona-se a todos que desejam entender esta lógica que – carinhosamente – chamo de Karnaliana, mas em especial aos fiéis católicos que, pelo menos na minha timeline na redes sociais, insistem em difundir heresias com essa.

Para entender o que há de errado com esta argumentação de que os cristão se contradizem com a questão do sofrimento de Jesus é preciso estar atento a 4 aspectos, que são: entender os planos de Deus Pai, as profecias do antigo testamento, o peso do pecado sobre a nossa vida e que todos os pecadores foram autores da paixão de Cristo. Seria possível falar muitos outros aspectos, mas vamos nos focar nestes principais. Talvez apenas um destes argumentos já seja suficiente para demonstrar que este pensamento herético é absurdo, mas usarei todos, para que não haja dúvida que ele é inviável até mesmo como algo verossímil.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a morte violenta de Jesus foi, antes de tudo, desígnio de Deus Pai (§599). Este desígnio teve como objetivo restabelecer a salvação ao homem, livrando-o da morte por causa do pecado (§602). Este desígnio não se tratou de um teatro ou uma sequência de atos orquestrados, mas ao contrário, permitiu que os atos individuais de cada pessoa envolvida na derradeira noite (Judas, Soldados, Herodes, Fariseus etc) resultam no plano de salvação para a humanidade, que incluía a morte violenta do “servo justo”, como cordeiro imolado.

Este amor é de iniciativa de Deus Pai para conosco, criação sua, independe de sua raça, profissão ou obra, logo inclui até mesmo os ladrões, para que Deus pudesse cumprir o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer. (Atos 3, 18). 

O próprio Jesus revela isso. Enquanto conversava com os discípulos de Emaús, caminhando, Jesus se aproximou deles e eles iam explicando tudo o que aconteceu – sem os discípulos de Emaús saberem que o peregrino era o próprio Jesus – e ouvindo todo relato os questiona: “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?”  (Lc 24,26). Também devemos nos atentar a passagem de quando a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus pedindo que os seus filhos sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no reino de Jesus e ele respondeu “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” (Mt 20,22). 

Outro aspecto que deve ser levado em consideração sobre a crucificação de Jesus Cristo são as diversas profecias do antigo testamento cumpridas em si e no momento de sua morte, corroborando o desígnio de Deus Pai. Quando Jesus foi julgado, poderia ter convencido a todos de sua inocência. Talvez nem precisasse de milagre, apenas expondo a verdade da corrupção dos fariseus para com Judas, justificando a suas obras ou simplesmente apelado aos julgadores. Quais motivos teria o dono de uma perfeita oratória ficar calado aguardando a sua condenação?

Testemunhas maldosas enfrentam-me e questionam-me sobre coisas de que nada sei. Elas me retribuem o bem com o mal e procuram tirar-me a vida. (Salmos 35: 11,12). 

Outro prenúncio da crucificação do servo justo refere-se a situação de suas mãos e pés que, conforme as profecias seria, transpassados (Salmos 21, 17).

Até mesmo a crucificação entre bandidos já havia sido escrita pelo profeta Isaías quando diz: Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados (Isaías 53,12).

Neste contexto, também é necessário observar o peso do pecado sobre a nossa vida. Uma vida de pecado, roubo, maledicência e demais venenos para a alma nos conduzem para uma morte em vida. Apesar do corpo aparentar estar vivo, a alma já padece em morte. Além disso, o que há de se esperar como salário por uma vida desviada, a não ser a morte? O salário do pecado é a morte (…) (Romanos 6: 23). Nisso até mesmo o bandido que defendeu Jesus – Dimas – reconheceu quando disse:E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez” (Lucas 23: 41). A vida no pecado nos afasta de Deus, seus caminhos e seu favor, levando-nos à violência contra a própria alma e consequente ódio à Deus e todos os que me odeiam [Deus] amam a morte (Provérbios 8:36). Aqui talvez caiba a prudente diferenciação entre justiça e misericórdia. Feita confusão propositalmente (ou não) a diferenciação entre ambas é um ponto chave para entender este tipo de acusação aos cristãos. De maneira bem superficial, podemos entender a justiça como a qualidade de algo que esteja justo, igualmente distribuído, devidamente justificado. A misericórdia pode ser vista como um outro nome para amor. Ela nos aproxima e permite esta justificação, através de obras, orações e demais atos de fé (vide Mateus 25, 32-46). Certamente voltarei a este tema oportunamente, mas adianto, não é justo torturar.

Finalizando o raciocínio, é importante lembrar também que, como nos chama à reflexão o nosso Catecismo, somos todos nós – pecadores – autores da paixão de Cristo (§598). Isso significa que a nossa condição de pecador também nos coloca na autoria e motivação da paixão e morte de Jesus Cristo. Atribuir a alguém uma culpa que também é nossa é, antes de tudo, um modo nada honesto de encarar a realidade concreta do plano de salvação de Deus Pai e, principalmente, tornar-se alheio a este plano.

 

Resumindo:

Os argumentos, que tem como objetivo de trazer culpa os cristão, em variações como “Cristão que tortura Jesus e apoia o torturador” e todas essas variações são dissimuladas da verdade, pois: não leva em consideração os desígnios de Deus para morte de cruz de Jesus, seu plano de salvação e profecias; compara um pecador que recebe a dor como justificação pelos seu maus atos com o servo justo que sofre em um contexto absolutamente diferente (apesar da tortura também não ser modo justo); e ainda exime-se da co-autoria desta injustiça redentora, como se a redenção não precisasse atendê-lo também, pondo-se acima dos demais.

 

“Ah! Quer dizer então que o torturador é inocente??” Lógico que não, mas é preciso entender o motivo para alguém usar estes argumentos para confundir a opinião das pessoas.

Isso pode acontecer por diversos motivos, como o esvaziamento dos “ícones revolucionários”; pela necessidade de justificar um pensamento herético a até apelar à comoção para obter vantagens.

A verdade é que o uso da imagem de Jesus para fins políticos, partidários ou ideológicos no Brasil já ultrapassou todos os limites de escárnio, heresia e blasfêmia. Desde o Jesus refugiado do Roda Vida até a comunhão indigna em uma missa com fins políticos (que além de tudo ainda é crime eleitoral) o uso da religião como justificativa do voto se deformou.

Quem usa argumentos como esse para atacar os cristãos – mesmo se dizendo um – não entendeu o sacrifício do cordeiro.

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