Conversão de S. Paulo e a Nossa Conversão

Hoje é o dia que a Igreja comemora um fato marcante na vida daquele que se tornou um dos maiores anunciadores da boa nova de Cristo: a Conversão de S. Paulo.

A narrativa deste momento a maioria de nós conhece: Saulo, um grande conhecedor da Lei mosaica, ferrenho defensor da tradição de Israel, perseguidor dos cristãos1, estando no caminho para Damasco no encalço dos seguidores de Cristo, teve um encontro com o próprio Senhor que lhe perguntou por que O perseguia.2

Deste relato é possível extrair inúmeras meditações: a sabedoria imensa de Deus que busca num perseguidor um dos maiores apóstolos, a certeza que quem persegue aqueles que seguem a Cristo, persegue diretamente a Ele, o aprendizado de que nossa obstinação e orgulho nos farão mais cedo ou mais tarde sofrer uma queda….  Mas não é sobre estes pontos que desejo falar neste  artigo.

Para que a leitura hagiográfica tenha sentido em nossas vidas é importante que o conhecimento das experiências dos santos realize transformações em nós e nos leve a decisões mais firmes na nossa caminhada para Deus. Senão serão apenas sementes lançadas em terreno infértil.

Em suma, a conversão do Apóstolo Paulo tem que nos levar a avaliar a nossa conversão, trazer os aspectos daquela experiência para nossas vidas e analisar com coragem a nossa própria mudança de vida.  Temos o exemplo de S. Paulo, primeiro ponto; mas para não nos perdermos em devaneios precisamos de um bom alicerce para servir como guia de nossas reflexões e esse alicerce encontra-se nos ensinamentos da Esposa de Cristo, segundo ponto.

A Santa Igreja apoiada no livro de Ezequiel ensina que “o coração do homem é pesado e endurecido. É necessário que Deus dê ao homem um coração novo3. Isso é uma realidade importante. Deus nos dá um coração novo. Então pensar numa conversão realizada conforme nossas conveniências é um absurdo, pensar numa conversão na qual vamos escolhendo os pecados a abandonar a cada etapa não condiz com uma ação divina em nossas vidas, afinal a conversão é uma obra da graça de Deus.4

Vejamos o exemplo do Apóstolo S. Paulo, assim que foi curado da cegueira, teve toda a sua vida conformada a Cristo e ao Seu anuncio. A cegueira serve para ilustrar nossa cegueira antes da experiência com Nosso Senhor quando estávamos envoltos das trevas do pecado e  também o primeiro contato com a luz extraordinária  de Deus, afinal é o momento no qual se descobre a grandeza do amor de Deus e o coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado5  e este estado que nos defrontamos com o amor de Deus e olhamos para nossa vida imersa no pecado pode causar-nos a impressão de estarmos desnorteados, como uma espécie de cegueira frente a luz celestial.

São Paulo afirma que tem tudo em conta de esterco por conta pelo conhecimento de Cristo6, isso não é outra coisa senão fruto da conversão. Cabe a nós avaliar nossos corações e ver se de fato abrimos nossas vidas para que a graça de Deus agisse e fosse-nos dado um novo coração, se de fato deixamo-nos tocar pela grandeza do amor Deus e passamos a ter medo de ofende-lo7, se podemos com o apóstolo dizer que temos todas as vantagens, glórias e bens e terrenos como esterco ou se cobiçamos ainda as coisas do mundo e por isso não somos dignos de sermos chamados cristãos.8

Precisamos nos decidir por esta conversão verdadeira, que causa uma transformação de fato no nossa forma de pensar, de agir, de nos relacionar com Deus. Este desejo e chamado de Cristo ocorrem antes de tudo interiormente9: no segredo de nossa alma, no silêncio dos nossos corações. Somente depois somos impelidos  “à expressão dessa atitude em sinais visíveis, gestos e obras de penitência”10 . É inevitável não retornar ao exemplo da conversão que comemoramos hoje; S. Paulo vive todo esse processo interior no tempo de sua cegueira e durante o período que sofria a desconfiança dos cristãos, posteriormente toda essa conversão do Apóstolo dos Gentios manifestou-se grandemente em sinais visíveis. Afinal nossa vida transparecere aquilo que preenche nosso interior. 11

Voltemo-nos para nós; o que temos expressados são os frutos da nossa conversão interior ou são frutos da nossa vaidade que quer imputar aos outros regras que criamos e mal conseguimos cumprir e que creditamos a Deus a autoria? Nesta questão, obviamente, não está uma escusa para o nosso anúncio da verdade, denúncia do erro e orientação e correção do próximo; ações estas que, quando são frutos de uma verdadeira conversão e movidas pelo Espírito Santo tem como sinal a paz interior ao serem realizadas.

O fato é que embora perdoados do pecado original no Batismo, sofremos com as suas consequências. Por isso, mesmo após um genuíno processo de conversão, podemos esmorecer e voltar a nos distanciar de Deus. Entramos no âmbito da manutenção daquela conversão inicial através de pequenas conversões diárias interiores. Eis porque dizer que a conversão se faz a cada dia. Não porque se abandona convenientemente os pecados por ainda encontrar prazer neles, mas porque nossa concupiscência nos inclina para o mal e também porque, como ensina Santa Teresa, quando nosso coração é iluminado pela luz divina damo-nos conta da sujeira e da desordem que há nele. 12 Não há dúvidas que S. Paulo se abriu a este processo de conversão diária, pois, apesar de todo significado metafórico que possa existir, ele ao olhar para seu coração iluminado pela luz divina vê algo que lhe incomoda e que considera um espinho na carne. 13

A Igreja ensina meios para nos ajudar a permanecer no caminho de conversão diária: “por gestos de reconciliação, pelo cuidado dos pobres, o exercício e a defesa da justiça e do direito, pela confissão das próprias faltas aos irmãos, pela correção fraterna, a revisão de vida, o exame de consciência, a direção espiritual, a aceitação dos sofrimentos, a coragem de suportar a perseguição por amor da justiça”. 14

E mais do que isso, a Santa Igreja nos oferece como fonte e alimento de conversão: o próprio Cristo na Eucaristia; como não dizer que o apóstolo Paulo não se alimentou desta fonte? Haja vista o amor com que ele fala deste sacramento na primeira carta aos Coríntios, exortando inclusive que se examine a si mesmo antes de se aproximar do Corpo de Cristo.15 Observemos como o exame de consciência é uma das formas dada pela Igreja para a conversão cotidiana.

Por fim, seja pelo fato dos nossos corações serem mais iluminados por Deus e reconhecermos mais ainda nossos pecados, seja por esmorecimento que nos leve a pecar, a Igreja nos oferece ainda a reconciliação com Deus através do Sacramento da Confissão. É fundamental que recorramos a ele sem temor, pois através dele somos banhados pelo sangue do Cordeiro, recebendo de Deus a força de começar de novo13, ou seja, de convertemo-nos para Ele novamente.

Esta luta diária para não ofender mais a Deus através de uma conversão diária deve ser travada com afinco para podermos chegar ao fim da vida e dizer o mesmo que S. Paulo disse: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé.” 17 Na certeza que desde aquele primeiro encontro com a Luz Divina que é Cristo, fizemos tudo para não nos afastar do Seu amor e da Sua vontade.

São Paulo, Apóstolo dos Gentios, rogai por nós.

Wellington Vieira

1 – cf. Fl 3,4-6
2 – cf At 9, 1- 13
3 – Catecismo da Igreja Católica §1432
4 – Cf. Ibidem 3
5 – Cf. Ibidem 3
6 – Cf. Fl 3,7
7 – Cf. Ibidem 3
8 – Cf. Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Romanos
9 – Cf. Catecismo da Igreja Católica §1430
10 – Catecismo da Igreja Católica §1430
11 – Cf. Mt 13, 34-35
12 – Cf. Santa Teresa de Jesus, Castelo das Moradas Interiores
13 – Cf. II Co 12, 7-8
14 – Catecismo da Igreja Católica §1435
15 – Cf. I Co 11, 23-25
16 – Ibidem 3
17 – II Tm 4,7
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