Bakhita – A “afortunada” de Deus

A Tradição da Igreja celebra no dia de hoje a memória de uma santa muito especial, Santa Josefina Bakhita. Uma escrava sudanesa que trilhando os caminhos misteriosos de Deus, sem mesmo conhecê-Lo, tornou-se “pérola negra, incrustada na coroa da glória de Deus”¹.

Bakhita nasceu no Sudão, em 1869, viveu uma vida feliz até o dia que sua irmã maior foi raptada, ela conta em seu diário que neste momento sentiu a primeira das muitas dores que haveria de sentir. Tempos depois, ainda criança, Bakhita haveria de amargar a mesma experiência de sua irmã, quando também fora raptada por estrangeiros armados e levada ao mercado de escravos. A partir deste dia, inicia-se o calvário desta podre menina, que arrancada de sua família conheceria em sua própria carne o quão cruel o ser humano pode ser.

Bakhita cresceu sem conhecer a Deus, mas tinha uma certeza interior de sua existência, sentia-se em muitas ocasiões, protegida por um ser superior. Ela deslumbrava-se com o amanhecer, olhava o sol e sabia dentro de si, que mais bela do que aquela visão deveria ser quem criou tudo aquilo. Questionava a si mesma: “Quem seria o patrão dessas coisas tão belas?” E sentia uma vontade enorme de vê-lo, de conhecê-lo, de prestar-lhe homenagem.

Ela foi vendida e condenada à escravidão, torturada, marcada, passou sede e fome, foi presa a correntes, esteve exposta a todo tipo de abominação e perversidade, mas carregava em si uma luz, uma fé, que não sabia de onde vinha e que nem sabia nomear, mas que lhe dava a certeza de que havia alguém maior do que tudo o que ela poderia imaginar.

Tantos foram seus sofrimentos que esqueceu seu próprio nome, sendo posteriormente chamada por comerciantes de escravos de Bakhita, que significa “afortunada”. Pouco se compreenderia do significado deste novo nome, sua vida estava norteada de infortúnios, afinal. Até que mais tarde, ainda Jovem, foi comprada por um cônsul italiano, levada para a Itália e entregue a uma família amiga em Veneza, aos serviços do casal Michieli.

Bakhita passou a ser babá e amiga da filha deste casal. Quando por conta dos negócios a família precisou retornar a África, mas decidiram por bem, deixar Bakhita e a filha aos cuidados das religiosas de Santa Madalena de Canossa.

Abre-se um novo céu para a jovem Bakhita, que recebeu a graça de ter seu encontro com o Senhor, conhecer o Evangelho, ser batizada aos 21 anos e receber o nome de Josefina, tempos depois, de escrava que era, escolhe crescer na santidade, decidindo por amor a Deus abandonar tudo, e mesmo sentindo-se indigna e com medo de uma negativa da Ordem, torna-se Irmã Josefina e passa toda a sua vida a servir seu verdadeiro “Patrão”.

Por fim, no dia 8 de fevereiro de 1947, entrega-se definitivamente a Deus, pronunciando suas últimas palavras: “Nossa Senhora!”. Aquela que, em seu próprio testemunho, libertou-a dos sofrimentos e a lembrança da escravidão não lhe fazia mais sofrer.

O Papa Emérito Bento XVI, em sua encíclica Spe Salvi utiliza da Santa Josefina Bakhita para nos falar de esperança: “só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um ‘paron’ acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo ‘Paron’ supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada. […] mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai’. Agora ela tinha «esperança»; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa”.

Por meio de Santa Josefina Bakhita Deus revela a nós um grande segredo para a santidade, expressado no próprio corpo, refletido eternamente na alma. Uma via de submissão heróica e obediência à vontade divina “A obediência agrada muito ao Senhor. Sadios ou sofrendo, é preciso obedecer sempre, porque essa é a vontade do Senhor”, de fé inabalável “Com Deus no coração tudo se suporta”, e de perdão salvífico “Se encontrasse aqueles negreiros que me raptaram, e mesmo aqueles que me torturaram, ajoelhar-me-ia para beijar as suas mãos; porque, se isto não tivesse acontecido, eu não seria agora cristã e religiosa”.

Por Ellen Sales

 

Link para o filme:  https://gloria.tv/video/QEogPy46tRHy34cg83fDEetYo

1 – “Uma pérola negra, africana, está incrustada na coroa da glória de Deus” Cardeal Gabriel Zubier Wako, Arcebispo de Cartum, Sudão.

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