A “teoria do arco íris” e a vida intelectual

Não é espantoso como hoje em dia um símbolo pode ser tão facilmente esvaziado? Sei que o arco-íris é um símbolo da aliança de Deus com os homens (Gênesis 9: 12-17). Na modernidade foi incorporado também ao movimento LGBTQIASDFGHJKLÇZXCVBNMQWERTYUIOP+AM e FM e não, não vamos falar sobre isso agora…

Durante a minha infância eu ouvi muito uma história sobre os arcos íris, além do pote de ouro no final dele. Caso você passasse por baixo dele mudaria de sexo. Menino viraria menina e menina viraria menino. Não sei se esse tipo de bullying era específico da minha família, mas – confesso – eu tinha bastante medo dos arcos íris… Baseado nessa traumática experiência foi desenvolvendo, com o passar do tempo, uma teoria parecida com a fronteira brasileira que já usei como exemplo em conversas informais. Chamo essa teoria carinhosamente de Teoria do Arco Íris e ela consiste em: acredito que há alguma força que transforma todas as ideias que passam as nossas fronteiras. Está duvidando? Então vamos a ver alguns exemplos.

A promulgação do Rito Ordinário de Paulo VI permitiu a flexibilização de diversos pontos do rito da Missa. Ao passar pelas fronteiras brasileiras a flexibilização foi contaminada por uma enxurrada de abusos litúrgicos que vão da missa sertaneja [seja lá o que isso signifique] à influências do marxismo, teologia da libertação e até maçonaria na liturgia. Chegamos a ponto das pessoas acharem que um rito ordinário substituiu o extraordinário, mas isso não é verdade. É como se a Missa Tridentina fosse “clandestina”… Fazem até reportagem para mostrar “que tipo de pessoa frequenta isso”… 

A devoção à imagens é outro exemplo. É absolutamente normal a veneração de imagens como já vimos na reflexão passada, mas ao passar pelas fronteiras brasileiras cria-se uma caricatura dos fiéis, como devotos de santos de barro ou de um Deus morto. Esta visão é insistentemente difundida por filmes e novelas, como a de um fiel falando com voz de bebezinho para uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré em uma novela que acabou não tem muito tempo. 

É lógico que esta “teoria” é uma forma de tratar jocosamente um tema sério: a fraqueza intelectual que nós brasileiros temos

O ser humano tem a necessidade de conhecer o mundo que o cerca, como uma criança que quer entender tudo o que vê. Tudo é novo. Estas coisas precisam ser associadas a sua função, denominadas e associadas a outras coisas para que aprendamos sentido a elas. É um processo de aprendizagem natural. Quando perdemos a capacidade de associar a função das coisas, denominá-las de forma a confundir com outras coisas que conhecermos e associá-las a coisas que nos agradam corremos o risco de aprender de forma errada essas coisas. Por exemplo, se você só conhece a Teologia da Libertação enquanto prática religiosa dentro da Igreja, tudo o que vem a ser Igreja deve obedecer essa associação e tudo fora dela é “deturpação” da Igreja.

O problema central que uso após explicar a Teoria do Arco-Íris para as pessoas e a falta de capacidade que nós brasileiros temos para entendermos as coisas como elas são e sempre acabamos contaminando as práticas, com o nosso jeitinho de abrasileirar as coisas e não me incluo fora da frase “a falta de capacidade que nós brasileiros temos para entendermos as coisas”.

A conversão deve ser acompanhada de uma vontade de servir a Deus com justiça e retidão (1 Reis 3: 9), conforme pediu Salomão ao Senhor. Devemos buscar, para agradar sempre a Deus, uma inteligência para praticar a justiça (1 Reis 3: 11).

Não entendam que a busca por uma vida intelectual seja exclusividade dos Católicos ou dos Cristãos como um todo. Até mesmo para um pagão a vida intelectual, com o objetivo de contemplar a Verdade, deve ser uma meta. O problema é que a fraqueza intelectual impede as pessoas de perceberem que certos ciclos de leitura não a levam a entender o mundo, mas sim a justicá-lo, como uma cobra comendo o próprio rabo, vão se perdendo em um círculo que só se preocupa em justificar uma mentira que foi contada como argumento para justificar a próxima mentira a ser contada, seguindo assim infinitamente.

Para os católicos, em especial, esta vida intelectual deve nos conduzir a Deus. Devemo ter a capacidade de nos ocuparmos da leitura da Sagrada Escritura (um dos três pilares da Religião Católica) diariamente, estarmos atentos à tradição e aos documentos da Santa Igreja para que possamos ter uma vida intelectual e íntima de oração capaz de nos ajudar a discernir os problemas do dia-a-dia (como o que de fato diz a Santa Igreja sobre assunto como aborto) e garantirmos o caminho nesta vida com fé reta.

A verdade que nos ilumina deve ser o próprio Cristo como dito pelo Papa João Paulo II na Encíclica Veritas Explendor, e ao cairmos em pecado, a nossa “capacidade para conhecer a verdade fica ofuscada, e enfraquecida a sua vontade para se submeter a ela”. Esta realidade não pode ofuscar a nossa liberdade, que consiste em buscar o bem supremo de nossa alma (Deus). Para nós perguntas como “o que devo fazer?” ou “como discernir o bem do mal?” só podem ser respondidas graças a luz que brilha no nosso espírito humano. Quanto mais contato com a literatura religiosa como a Suma Teológica, Tratado da Verdadeira Devoção, Tratado de Teologia Moral entre outras inúmeras obras teológicas nos ajudam a ir iluminando essa estrada do conhecimento.

Um exemplo disso é Santo Inácio de Loyola. Inácio quebrou a perna durante a defesa do Castelo de Pamplona (1521) e durante a sua recuperação começou a ler sobre a vida de Cristo e dos Santos. Admirado pelos testemunhos da vida de São Francisco de Assis, dedicou a sua vida pela conversão das pessoas. “São Francisco fez isso, pois eu tenho de fazer o mesmo. São Domingos fez isso, pois eu tenho também de o fazer”. Se Santo Inácio de Loyola fez, porque não eu devo fazer também?

A busca do fortalecimento da fé pela razão não é contraditória. Longa é a história da parceria entre elas, desde antes das escolástica. Estas duas capacidades humanas “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”, conforme nos ilumina João Paulo II em sua Encíclica Fides et Ratio (Fé e Razão). A fé e a razão são os nossos pares de asas. Com eles poderemos, seguramente, chegar a contemplar as coisas com elas são.

A única saída para que um dia “a fronteira de nosso país não pervertam o entendimento das coisas” é se estivermos firmes no conhecimento. Para isso é necessário entendermos que é preciso investir tempo, leitura e esforço para uma catequese contínua e duradoura. Assim, não permitiremos que símbolos sejam esvaziados em seu sentido, que a injustiça seja disfarçada de justiça, que a falta de moralidade seja travestida de moralidade social. Só assim seremos capazes de entender o que é bom e mal.

 

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